Outro dia li uma crônica do Drummond em que ele explicava ao seu carteiro que escrever era esvaziar a alma. Não pude deixar de concordar e pensar sobre isso. Eu como uma “escrevente” (não ouso dizer que sou escritora – afinal, quem sou eu para dizer que sou o que pessoas admiráveis como o próprio Drummond é?) compulsiva de e-mails gigantescos e que extravasam todas as minhas emoções, sou prova viva de que tal afirmação é verdadeira. Depois que escrevo esses intermináveis e-mails me sinto confortavelmente mais leve, é como se aquelas linhas se encharcassem de minha alma, e eu pudesse, enfim, seguir com um peso a menos.
Mas, o alívio dura pouco. Logo já me vejo, novamente, enchendo a tela do computador com minha alma. Será que ela não esvazia nunca??? Será que os destinatários dos meus e-mails se sentem pesados com tanta alma recebida??? Acho que daqui a pouco os senhores “Googles” terão que inventar um rastreador “anti-alma”. Fico com dó dos meus queridos amigos. Afinal, quem tem tempo hoje em dia para ler tantos e-mails “pesados” de uma “escrevente” compulsiva?
Escrever mais do que um exercício de limpeza acaba se tornando um vício, similar ao daquelas pessoas que tem mania de limpeza, que não podem ver uma poeirinha e lá estão elas com seus paninhos em mãos. Com “escreventes” compulsivos acontece a mesma coisa, qualquer bobagenzinha que nos acontece já pensamos em escrever (o vizinho fazendo reforma, aquele ex que insiste em ser o babaca do ano, a amiga que tava com suspeita de uma doença séria, a crônica que li...). E essas coisas, transformadas em letrinhas, não abandonam minha cabeça, até que elas passem da minha cabeça para a tela do computador. Porém, minha censura não permite que todas essas bobagens sejam escritas nos tais e-mails, afinal, tem coisas que ninguém merece, né?! Nem grandes amizades precisam ficar lendo textos como esse, que esvazia a minha alma, mas que, provavelmente, não fará diferença na vida de ninguém.
O que ninguém esperava era a minha cara de pau (sim leitores, sou uma garota atrevida e cara de pau, sim senhor!) de fazer esse blog, que não tem nenhum objetivo ou temática específica. Portanto não esperem um “Flavinha no mundo da Lua - o retorno”, na na ni na não, esse blog não foi feito para o deleite dos senhores, e nem para ter histórias engraçadas e aventuras para lá de surreais. Nada disso! Esse blog é um projeto egoísta (sim, eu assumo isso!) que pretende dar vasão a esse vício, assim sem censura mesmo, e é claro para manter a alma sempre limpinha. Aos amigos já deixo o aviso de que não podem respirar aliviados, porque o vício é grande e provavelmente os e-mails continuam...
Para terminar o primeiro de muitos textos parafraseio o carteiro de Drummond: “- Bem, já que vocês insistem, aqui está o blog, e não reparem nos defeitos, viu? Esvaziei bastante a alma, tudo não era possível”.
Nota: A crônica que aqui faço referencia chama-se Sondagem do Carlos Drummond de Andrade, eu a li na coletânea de crônicas organizada pelo Humberto Werneck pela Companhia das Letras.
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8 comentários:
Flavinha querida! Saudades de você! Embora o texto se declare "egoísta" eu me senti (sim) uma leitora beneficiada (e uma amiga privilegiada de ser a primeira a comentar aqui =P)!
O meu depoimento é o de que a ação do "esvaziar" não deu muito certo "por aqui".
Será que na recepção os leitores enchem a alma? Pode ser que sim...A minha ainda está cheia de vazios para preencher =P
Beijo e sucesso no seus "esvaziamentos"!
Dé Watanabe
viva! longa vida ao esvaziaalma! bjs e saudades, Claudinha.
Adorei o volta do blog!!!!
agora vc pode sempre esvaziar sua alma aqui!!!!
Bjs e saudades
Bárbara
Adorei o texto. Continue esvaziando a sua alma aqui neste blog e enchendo a nossa de palavras doces.
Beijos,
Marina
Flavinha,
Que bom tê-la de volta!
Me identifiquei muito com o ato de escrever, poder esvaziar a alma.
Quando me separei,nas horas mais angustiantes,escrevia para poder desabafar.E não é que me fazia muito bem!Me sentia mais leve e ao mesmo tempo mais forte.
Vamos esvaziar nossas almas!!!
Beijos,
Tia Paula
Querida Fla,
que maravilha poder encher a alma com suas letras...
Tava roxa de saudades dos seus textos. Penso o contrário de vc, quando diz que este blog foi criado num ato egoísta, acho até que é um ato bem altruísta, pois está enchendo a nossa alma, leitores privilegiados do esvaziaalma.
Bjs saudosos,
Lulu.
Que Fase!!!
Olha ela aí de novo!
Acho que vou aproveitar a oportunidade prá esvaziar a minha alma também, e ao mesmo tempo encher o saco da escritora...
Beijos da mama
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