segunda-feira, 28 de abril de 2008

Vagón Fumador


Ontem, domingo mais tedioso e mais demorado do que o normal. Estou irritadiça, cansada, de saco cheio. Na tv só se fala no caso Isabela, já não posso mais! Contrariando minha falta de sono me recolho ao meu quarto. Numa última tentativa antes de ficar rolando na cama, resolvo ver se alguma coisa no Canal Brasil salva essa noite domingueira. E que sorte a minha, já ia começar a sessão “Cone Sur”, ainda bem não sei se agüentaria um filme nacional, filme argentino inédito (para mim), melhor ainda.
Começo a ver o filme sem a menor idéia do que se trata e de onde ele vai me levar. Melhor assim, sem expectativas, sem frustração, tudo uma grande surpresa. E assim vai o Vagón me levando para o sub mundo de Buenos Aires, contando a história de um garoto de programa e de uma jovem, Reni, que já está farta de sua vida.
Não sei dizer ao certo se gostei ou não do filme, arrisco a dizer que gostei. Mas não posso deixar de dizer que ele mexeu comigo, de uma forma estranha que nada tem a ver com gostar ou não gostar. Não digo que fiquei angustiada com as cenas que revelam o sub mundo bonaerense, o sexo no caixa eletrônico, o ménage (se bem que essa cena mexeu comigo, não pela cena em si, mas pela a expressão de Reni). O que mexeu comigo, ainda não sei explicar que sensação experimentei, foi aquela menina cansada de sua vida, foi aquela banheira que pouco a pouco se tornava rubra, as coisas que ela disse, os sonhos que ela tem. É a identificação com essa jovem que também quer ser uma serpente, mas não que passa de um coelho.

O filme acabou e eu fiquei em cólicas (literalmente, não me agüentava dentro do meu corpo, parecia que eu precisava expelir, urgentemente, algo). Já não podia dormir. Sentia-me sufocada em meu quarto, em mim. “Estás solo y ya no puedes dormir. ¿A quién vas a contar tus pesadillas?”.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Cansei

Cansei! Cansei do senso comum, cansei das mesmas perguntas, cansei de tentar responde-las, cansei de ter que ter uma explicação para tudo. Porquê não podemos simplesmente seguir em frente, nos perdermos em nós mesmos, nos encontrarmos de repente, sem ter que ficar falando, ficar racionalizando cada passo? Não seria tão mais fácil se todo mundo reconhecesse que cada um possui uma verdade, em vez de ficarem tentando encaixar situações (totalmente únicas) em modelos que a MINHA verdade diz que é totalmente falido?
Não, as coisas não são tão simples como gosto ou não gosto, fico ou não fico, quero ou não quero. Pode ser assim para pessoas assim, pode funcionar para um montão delas. Mas para mim isso não funciona. A minha situação não comporta, não se encaixa nesses velhos modelos. Há outros fatores que as pessoas parecem não ver. Não é, apenas, questão de gostar, de querer, de desejar, há também a vida, o tempo, as crenças, o passado, as expectativas de futuro. Não podemos simplesmente jogar isso fora, desrespeitar a individualidade de cada um exigindo respostas simples como sim ou não.
Não entendo porque as pessoas não conseguem ver que entre o sim e o não existe uma terceira via a ser traçada, única e exclusivamente por nós. Não é tão mais autentico traçarmos nosso próprio caminho, de acordo com nossos gostares, quereres, desejos, vida, tempo, passado e futuro? Não poderia dar muito mais certo fazermos o nosso caminho do que simplesmente adotarmos os que o senso comum acha possível?Agora minha ando na terceira via, mais pela impossibilidade de me encaixar do que pela repulsa das outras vias. O que me causa repulsa é o não entendimento do que foge do senso comum.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dos contos de fadas

Essa semana em conversa com uma amiga sobre relacionamentos, tema predileto da conversação feminina, ela me disse que se sentia frustrada que podia parecer besta, mas que ela no fundo sonhava viver em um conto de fadas. Na hora respondi que todo mundo sonhava viver um sonho de fadas, ter seu happy end para todo o sempre. Acrescentei que há muito eu já não sonhava viver um conto de fadas, que a minha vida estava mais para um Sexy and the city. Fiquei pensando nisso e em outras conversas que tive, uma também essa semana, e outra há alguns bom anos.
Primeiro sobre o conto de fadas. Bom, não sei bem quando passei a não querer-los como objetivo de vida. Fato é que nos meus 15 anos queria ser a Cinderela, e que mais recentemente fui comparada à Branca de Neve. Mas no fundo já faz tempo que não quero um conto de fadas. Porquê? Sei lá, acho que é mais interessante viver várias coisas, vários amores, do que simplesmente sofrer, sofrer, sofrer e depois como uma compensação encontrar um príncipe assim bonitinho, e sem muita personalidade (já perceberam que nada sabemos dos príncipes, além de que eles, apaixonados, salvaram a amada? Nem sabemos se eles roncam, se foram mulherengos, se são inteligentes, se gostam de poesia...) nos fazem “felizes para sempre”. Não, não acho que seja possível ser feliz para sempre assim algo tão raso.
Homens, tolos que são, sempre acreditam que nosso objetivo final é sim encontrar o príncipe encantado e ser feliz para sempre. Por causa disso, um ex numa briga, eu tentando terminar um namoro de dois anos, me disse que eu tinha a ilusão de que a vida era uma novela do Manuel Carlos. E tudo isso porquê? Só porque eu queria mais para mim, queria ser feliz, queria sair de um relacionamento que já não me acrescentava em nada, queria sair e ver o mundo, queria sair do comodismo, e queria voar... Ele não entendia que ter aquele tipo de relacionamento, o happy end para muitos, não era para mim. Ele achava que eu queria ser uma heroína, jogar o amor fora, sofrer e lutar para tê-lo de volta, para aí sim ter meu happy end. Mas não era nada disso. Nem contos de fadas, nem novela de Manoel Carlos, a vida é mais do que isso, pelo menos a vida que eu quero para mim.
E o que é então? Bom, continuando com as analogias que comecei, acho que a vida, pelo menos a minha, está mais para Sexy and the city do que para as outras opções acima mencionadas. Além de ser mais verossímil, há nela muito do que realmente somos. Se um dia estamos super felizes com um amor ou com um trabalho, pode ser que no episódio seguinte aquilo já não se encaixe ao que queremos. As pessoas, as relações, tudo muda a cada instante. Como o que é um happy end hoje pode continuar sendo amanhã? Não há nisso uma grande falha?
Por isso sigo pensando que contos de fadas e novelas são uma grande furada. Afinal, quem nos contou o pós? Quem garante que existe mesmo um “felizes para sempre”? Eu, sinceramente, não acredito. Prefiro continuar vivendo um dia de cada vez, com as intempéries, as mudanças, as surpresas. Afinal, como eu disse a um amigo essa semana, me sinto igual a Carrie. Uma mulher “selvagem”, livre, que precisa do seu lado de uma pessoa, assim como ela, que corra livre ao seu lado, e não que queira doma-la. Enfim, com quem se poda viver um encontro casual a cada dia. Mas isso é tema para outro post...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Do encontro de almas

Escrever é cortar palavras. Como diria Drummond, “até mesmo as cartas extensas não dizem metade do que deixou de ser escrito”. Começo meu post dizendo isso que é para me justificar, com antecedência, a impossibilidade de exprimir em palavras a experiência que tive e que agora habita minha cabeça, minha alma e todos os recantos que possam existir em mim.
Afinal, como simples palavras poderiam ter a pretensão de explicar o que poemas, músicas, olhares, sorrisos, gestos não conseguiram? E olha que tudo isso esteve unido ao que eu chamaria de “aura mágica” e que fez parte de uma coisa muito maior e que está relacionado ao encontro de almas. Como me disse uma alma através das palavras de Fernando Pessoa: “As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade”.
Mas, mesmo que as palavras sejam vãs diante de tal encontro, me arrisco a descrever o que ficou em mim, mesmo que uma infinidade de coisas que ainda não inventaram palavras para elas fique de fora.
Porque tal encontro me marcou tanto? Tanto que sou capaz de dizer que nunca, isso mesmo nunca, tive uma experiência que chegasse perto do cheguei a experimentar faz um par de dias. Nem com os homens que arrisquei a dizer que amei um dia, nem os dias mais felizes com eles chegaram próximo a esse encontro. Porque? Muitos devem estar achando que eu, finalmente, encontrei o amor da minha vida. Não, não é isso, pelo menos não esse amor romântico, tradicional, que todo mundo está acostumado. O que é? Não sei, acho que ainda não inventaram uma palavra capaz de ser fiel ao que aconteceu nesse encontro de duas almas muito particulares, e que se abriram, completamente, para o desejo que as impulsionavam.
Se é só desejo? Também não sei responder, mas arrisco a dizer que há muito mais coisas envolvidas. Há identificação, há sinceridade, há arte, há música, há poesia, há inquietação, há mistério... Todos esse ingredientes e mais um montão que sou incapaz de nomear que marcaram um encontro que homens comuns não são capazes de oferecer a uma mulher que quer mais do que os filmes românticos ditam.
Não tenho palavras para dizer o que senti, me limito a dizer que adorei demais tudo. E que o mistério do que é isso, e de onde isso vai parar é o que me move a querer mais e mais. Afinal, o que importa não é o “e agora?” e sim “o para onde?”. Mas como disse, mais uma vez, o Drummond: “O caminho é mais importante que a caminhada”.Bom, agora é hora de seguir meu caminho, “aunque sea solo hoy”...