segunda-feira, 31 de março de 2008

Dos desejos

"Desejo é rapto, não é troca", apenas uma frase mais ou menos solta em meio à minha leitura. Mas como essas pequenas coisas são capazes de nos reter. Li, pela primeira vez com uma certa estranheza, mas segui minha leitura. Só que a leitura seguia e eu não pensava em nada além daquela frase. Voltei e li mais um milhão de vezes: "Desejo é rapto, não é troca".
Hummmm, interessante... Mas o que isso tem a ver comigo? A frase seguinte já me respondia: "uma pergunta sem resposta". Nossa, penso, realmente meus desejos são matéria de "estranha complexidade". Mas, peraí essa frase não me chamou a atenção por causa dos meus desejos, mas por causa dos desejos de uma outra pessoa (por mim?).
É isso mesmo, não sei se ele me deseja de fato, mas é real que quando ele me olha com aqueles profundos e misteriosos olhos azuis ele me rapta para o seu mundo de portas e janelas azuis, onde habitam gatos, música, cinema, vinho, queijo, tudo com uma leve penumbra misteriosa.
Enquanto tento transformar, em vão, tal desejo em troca (de confidencias, de segredos, de carinhos, de gestos ou de simples palavras) ele simplesmente me pega de surpresa, me leva para seu mundo particular, me despe dos meus pensamentos, das minhas tentivas de troca e já não sei para que me esforço tanto para entendê-lo.
Realmente desejo não é troca, ele é uma coisa que vai além do nosso consciente, é coisa que mexe em nossas entranhas, que nos rapta do pensamento superficial, e nos leva para a esfera do inimaginável.
Maluco? Bom, diria que é misterioso como a leve penumbra que envolve o mundo desse alguém que tem o poder de me raptar assim de repente, não mais do que de repente, e assim sempre de repente...

sexta-feira, 21 de março de 2008

Vó Zezé

No meu aniversário de vinte e quatro anos ganhei um presente que nunca imaginaria poder ganhar. Ganhei o cheirinho da vovó Zezé. Isso mesmo, o cheirinho dela dado por ela mesma. A vovó, que também faz aniversário pertinho de mim, me deu de presente um perfume, logo para mim que não sou de usar perfumes e cremes (esse último aprendi a usar, esporadicamente, graças a insistência da mamãe e da Marina).
Experimento o perfume e hummmmm que cheirinho gostoso, nossa com esse cheirinho sou capaz de começar a usar perfume diariamente. Fiquei ali meio extasiada com aquele cheiro tentando identifica-lo, tinha alguma coisa nele que era diferente, que era especial, ele despertava em mim um sentimento muito bom. E depois de prestar muita atenção me dei conta do óbvio, e não era que aquele era o cheirinho da vó Zezé. O mesmo cheirinho que desde a minha infância acompanhavam os abraços da avó de cabelos fartos e brancos e vestido “folhal” nas visitas ao seu apartamento cheio de porta-retratos, elefantes, e pequenezas dos mais diversos tipos.
Depois de acabada a visita, sozinha no meu quarto levo o pulso ao nariz e lá permanece o cheiro que traz recordações de tudo o que se relaciona com essa avó tão querida e tão avó. Os biscoitos de nata no final do ano, o bolo peteleco, a escova de dente de girafa (a minha escova preferida durante toda a minha infância), a samambaia na copa (aquela que nos dias de festa a tia Eneida carregava na cabeça), os milhares de objetos antigos ou nem tanto espalhados por toda a casa, a visita do papai Noel nas noites de Natal.
Colcha de retalhos tecida na velha máquina de costura que já parou faz tempo. Máquina que fez a minha fantasia de fadinha para um carnaval distante. Lembranças da arrumação antes de ir para a casa da vó Zezé, roupa impecável, cabelo arrumadinho, sandalinha da Xuxa, para as brincadeiras com aquela velha boneca com o cabelo espevitado e que chorava quando a colocávamos de cabeça pra baixo – “não chora bonequinha” -, de infindáveis cadernos de colorir coloridos com as melhores canetinhas do planeta, de alfinetes de cabeças coloridas que se transformavam em casas, árvores, céus azuis, sóis sorridentes em uma das mil almofadas do antigo quarto do Julinho.
E os almoços na casa da vovó? Sem dúvida a nossa alegria quando o papai decidia que ficaríamos para almoçar. Comida de avó da melhor qualidade, tudo bem temperadinho, o bife sempre o melhor do universo (até hoje não comi algum que chegue aos pés, nem quando fui para a terra das melhores carnes do mundo), a batata “solteira” (cozida e frita para os simples mortais).
Quantas deliciosas recordações podem morar em um cheiro? Em se tratando vó Zezé, essa avó que para mim sempre foi como um modelo do que são as avós, com seus infindáveis truques, comidas, doces, delicadezas, não há como não resgatar todos esses anos de deliciosa convivência regados de pequenos gestos, sutilezas e cheiros que ficarão impregnados em mim por todo o sempre.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Roda-viva

“O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração”. A cada dia que passa as músicas do Chico fazem mais sentido para mim. Hoje, com recém 24 anos completados (sim, queridos leitores, fiz aniversário essa semana) vejo como o mundo é essa grande roda-viva.
São 24 anos de esforços para tentar guiar o destino, os sentimentos e não é que “eis que chega a roda-vida e carrega o nosso destino para lá”.
Bom, não estou aqui para reclamar da minha impotência diante do meu futuro. Mas sim para dizer que hoje me sinto mais capaz de lidar bem melhor com essa roda-viva. Continuo querendo ter voz ativa e toda essa história, mas tenho consciência de que mesmo que tomemos as rédeas de nossas vidas (e temos que fazer isso de qualquer jeito), o destino sempre acaba nos surpreendendo e mudando nosso rumo. O que é ótimo! Afinal, já imaginou que chatice seria se soubéssemos exatamente o que nos aguarda daqui há 5, 10 ou 20 anos? Deus me livre! Bom mesmo é ser surpreendida, é passar por coisas que não imaginávamos, ter atitudes que antes tínhamos como impensadas, conhecer pessoas e lugares que (a princípio) não têm nada a ver conosco.
A única coisa que lamento é ter demorado em conseguir ver isso, para conseguir lidar com a vida. Mas não nascemos sabendo, né? E inclusive a minha fase dependente, na qual eu tinha a doce ilusão de que controlava todos os aspectos da minha vida, foi mais do que necessária, para que eu tomasse os meus tombos e aprendesse que a vida é muito mais do que nosso mundinho, nossa redoma de vidro. E para aprender é preciso quebrar esse vidro, é preciso deixar se intoxicar de vida, de imprevistos, de incertezas. Para aí sim, poder desfrutar das coisas que surgem nessa roda-viva.Sigo tomando muitos tombos no meu caminho, mas agora eles são diferentes. O prazer de levantar deles é enorme, e poder ver que a vida sempre nos dá de presente a mão amiga que nos ajuda a levantar (sim, sempre haverá uma mão amiga). O fato é que depois que consegui ver as coisas sob uma ótica diferente, parece que mundo gira rápido demais. São mil coisas que acontecem em tão pouco tempo. Será que foi o mundo que cresceu ou foi meu coração que deu mil voltas?

sábado, 8 de março de 2008

Ser mulher é...

Ser mulher é... uma infinidade de possibilidades. Mas com certeza a melhor coisa do mundo.
Nesse dia internacional da mulher quero compartilhar com vocês a maravilha e os perrengues de ser (ou pelo menos tentar ser) essa mulher do século XXI. Mas, afinal o que é ser essa mulher? Uma vez descrevi a uma grande amiga dizendo que ela é a típica mulher do século XXI: firme, decidida, que sabe o que quer, que corre atrás, que vai à luta, que conquista seu espaço, que não tem medo do que os outros pensam, que segue o coração, que vive intensamente, que chora quando acha que as coisas não estão dando certo, que precisa de colo de vez enquando, que dá a volta por cima depois de um mega tombo, que é cheia de contradições. É isso e muito mais. É carregar dentro de si um milhão de contradições: ser forte na profissão, determinada para conquistar o que se deseja, e ao mesmo tempo ser uma manteiga derretida quando apaixonada; é ser independente, firme e ao mesmo tempo frágil, sensível; saber o que quer em vários aspectos, e não ter idéia de que atitude tomar, que roupa vestir.
Não é fácil carregar dentro de si um mundo de contradições. Afinal, a mulher do século XXI é essa que pegou as caracteríticas que antes eram tidas como do sexo oposto (afinal, para fazer frente a eles e conquistarmos nosso espaço o mundo nos exige, força, firmeza, racionalidade, segurança) e fez com que elas convivessem com o que acham que é típico nosso (desde que o mundo é mundo as pessoas dizem que mulheres são seres sensíveis, passionais, intuitivas). Se já não era fácil conviver com esses opostos quando cada um habitava sexos distintos, imagina agora que eles habitam o mesmo corpo? Eu digo por mim. É duro, é difícil, é complicado. Às vezes acho que não vou dar conta, que explodirei com tanta confusão. Como posso dar conta de conviver com sentimentos tão distintos ao mesmo tempo? Não é nada fácil defender a sua independencia, acreditar que pode-se ser muito feliz não vivendo um amor romântico, e, ao mesmo tempo, ficar morrendo de vontade de viver uma comédia romântica, de querer alguém para ser seu cobertor de orelha, seu confidente, com quem se vê os filmes que você adora, toma vinho e tem uma boa conversa. É complicado querer construir uma carreira, ter que se dedicar de corpo e alma a uma profissão, e também querer construir uma família, ter seus filhos, pessoinhas que temos que dedicar muito mais do que nosso corpo e alma, mas nosso amor, nosso coração, nosso tempo, nossa paciência, nosso TUDO.
Não é fácil. Mas é maravilhoso ter isso tudo dentro da gente, de poder construir um mundo muito particular, muito complexo, muito gostoso. E que criatura na face da terra não se admira ao ter diante de si uma dessas mulheres do século XXI?

terça-feira, 4 de março de 2008

Encontros e despedidas

“A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”, já diria o mestre Vinícius de Moraes, o cara que sabia das coisas. Eu não posso fazer nada mais do que concordar e colocar aqui minhas reflexões sobre esse tema de encontros e desencontros.
Mas porque diabos, resolvi falar disso logo agora? Simples. Tudo isso resultou de uma conversa com alguém que não via há algum tempo, e conversando sobre o que era aquilo, porque de repente já não nos víamos com tanta freqüência, e quando nos encontramos “por acaso” rolou uma energia super bacana. Essa pessoa me soltou uma frase que me fez refletir muito. Ela me disse que tudo isso era “uma questão de encontro”. Nada mais nada menos que isso. Não, não estavam envolvidas questões complexas como desejos, expectativas, jogos e toda essa história, apenas encontros, e eu diria mais, desencontros também.
É, a vida prega cada peça na gente. Não adianta fazermos planos, criarmos expectativas e esperanças que a danada da vida se encarrega de providenciar os encontros e os desencontros que colocam tudo a perder, ou nos dão uma nova chance.
Fiquei pensando nisso não em relação a esse desencontro seguido de um novo encontro, mas também nos tantos outros encontros e desencontros que tive durante esse quase 24 anos de vida (ai, que já está chegando). Foram encontros fugazes, marcantes, divertidos, alguns que me fizeram perder a cabeça, outros que não conseguiram sequer desviar a minha atenção. Assim como foram tantos os encontros também foram os desencontros, alguns dramáticos, tristes, desesperadores, outros leves como uma brisa, daqueles que é resultado de um forte abraço, um sorriso no rosto e um até logo.Ainda não sei aonde chegarei com tanta divagação, acho que as coisas começaram a ficar um pouco confusas, né? O que é muito normal em se tratando da minha pessoa. Enfim, acho que a única coisa que eu queria dizer mesmo, o Vinícius já disse. Então, relaxemos que a vida se encarrega dos encontros.